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  Exibindo conteúdo de 27 de novembro de 2004.        Edição nº 767

Televisão
Mania nacional, assim como o futebol

Aos 10 anos, o analista de sistemas catarinense Nilson Xavier, 35 anos, gostava de brincar de carrinho, de esconde-esconde e de assistir a novelas. As brincadeiras ele deixou de lado, mas as emoções da telinha o acompanham até hoje. Como ele não perdia nenhum capítulo, acabou catalogando várias informações sobre novelas em cadernos que guarda até hoje.

- Anotava o nome dos personagens, a data de estréia e de encerramento. Fazia uma minificha técnica - conta.

Com o surgimento da Internet, o que era passatempo virou sucesso. Xavier, que hoje mora em São Paulo, é o criador do site Teledramaturgia, um dos mais completos do gênero na web.

- Os poucos sites que existiam sobre o assunto eram fracos. Eu tinha muito mais informação. Com a ajuda de um amigo, de livros e revistas, montei meu site em 1999. Ele começou pequeno, apenas com títulos da Globo - conta.

Depois, o analista de sistemas foi acrescentando minisséries, seriados nacionais e novelas de outros canais. Hoje, segundo Xavier, o Teledramaturgia é referência de pesquisa para gente da área e de fora dela.

- Não ganho dinheiro com isso. Pelo contrário, até pago pelo domínio Teledramaturgia na Internet - diz.

Emoção só com uma boa cena

O mais difícil, conta ele, não foi reunir as informações, mas digitá-las. Na estante, sua principal referência é o livro Telenovela Brasileira - Memória, de Ismael Fernandes. E os internautas também mandam informações adicionais e correções para algum dado da página, que é atualizada nos finais de semana.

A ironia é que, apesar de Xavier manter um site desse porte, ele não é fã de novelas. Assiste apenas as que gosta.

- Hoje em dia, o formato anda meio desgastado. As melhores produções ocorreram nos anos 70 - diz.

Mesmo assim, o analista afirma que a novela brasileira é uma fórmula única. E aponta Roque Santeiro como a melhor trama que já assistiu:

- Comparadas com produções de outros países, as novelas brasileiras são as melhores. Mas, para uma trama me emocionar, é preciso uma boa cena, bem escrita e dirigida, e com bons atores.

O site também tornou Xavier famoso. Ele dá entrevistas para rádios, jornais e revistas e recebe vários e-mails.

- Sempre me pedem contato com artistas. Daí tenho de explicar que o site não é de nenhuma emissora e eu não tenho contato algum com ninguém do meio artístico - conta.


Saiba mais
O site Teledramaturgia, criado por Nilson Xavier, está no endereço http://www.teledramaturgia.com.br/
A página registra todas as novelas já exibidas por todas as emissoras brasileiras, com elenco, sinopse, fotos e bastidores
O site também conta com biografias de autores, lista de trilhas sonoras e até um link para o Vale a Pena Ver de Novo, às 14h30min, na Rede Globo. No link estão registradas todas as reprises já exibidas nesse horário
O Teledramaturgia foi a fonte usada nesta reportagem para contar a história e as curiosidades sobre as tramas. Xavier também cedeu os logotipos das novelas para o Diário
Curiosidades? Espia qui!
Irmãos Coragem (1970) - A mais longa trama já produzida pela Globo: 328 capítulos. Uniu um casal famoso da TV: Tarcísio Meira e Glória Menezes
Selva de Pedra (1972) - Na exibição do capítulo 152, em que Rosana Reis (Fernanda Torres) era desmascarada, o índice de aparelhos sintonizados na novela atingiu 100%, segundo o Ibope
O Bem Amado (1973) - A censura implicou com os termos "coronel", para Odorico Paraguaçu, e "capitão", para Zeca Diabo. Até ser escalado para ser Zeca Diabo, Lima Duarte era diretor de novelas
Escrava Isaura (1985) - A novela fez bastante sucesso no Exterior, inclusive na Bósnia. Em 1997 (quando a novela foi exibida no país), e em plena guerra, sérvios e croatas decretaram cessar-fogo no horário em que a trama era exibida
O Astro (1977) - O país parou para ver quem matou Salomão Hayalla. O Astro exibiu uma cena marcante: Márcio Hayalla (Tony Ramos) tira a roupa, joga os trajes no pai, Salomão, e vai embora de casa renegando a fortuna da família
Dancin'Days (1978) - Dancin'Days era o nome de uma discoteca do jornalista Nelson Motta, no Rio de Janeiro, que serviu de locação para a novela. A produção ganhou uma reportagem na revista americana Newsweek, em 1978, sobre a influência nos hábitos do brasileiro
Roque Santeiro (1985) - Foi censurada em 1975, sendo substituída às pressas por Pecado Capital, de Janete Clair. A trama só seria exibida 10 anos depois. Betty Faria, que interpretaria a Viúva Porcina, não quis o papel
Dona Beija (1986) - Novela da extinta TV Manchete, marcou época com as cenas de Maitê Proença como Dona Beija
Mandala (1987) - Uniu na ficção e na vida real o casal Vera Fischer e Felipe Camargo, que se separou anos depois em meio a agressões físicas. O romance ganhou muita página de jornal pelos escândalos. Marcou época pelo tema da personagem Jocasta (Vera Fischer), a música O Amor e o Poder, de Rosana. O refrão grudava que nem chiclete: "Como uma deusaaaaa, você me mantééémmm"...
Que Rei Sou Eu? (1989) - O tema, O Rap do Rei, foi escrito por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então vice-presidente de operações da Globo
Pantanal (1990) - Sucesso que ameaçou a hegemonia da Globo. A novela ficou engavetada na emissora por muito tempo, até que Benedito Ruy Barbosa, o autor, acabou indo para a TV Manchete Com o sucesso, ele voltou para a Globo e entrou para seu alto escalão de autores
De Corpo e Alma (1992) - Ficou famosa não tanto pela trama, mas por um trágico acontecimento: o assassinato da atriz Daniela Perez a tesouradas pelo seu colega de elenco, Guilherme de Pádua. Os dois faziam um par romântico na novela. Daniela era filha da autora Glória Perez
Chiquititas (1997) - Exibida noSBT virou febre entre as crianças. Os atores Débora Falabella e Bruno Gagliasso participaram, ainda pequenos, do elenco
Da Cor do Pecado (2004) - Primeira novela da Globo a ter uma protagonista negra, a atriz Taís Araújo
Confira abaixo mais curiosidades sobre os grandes sucessos da teledramaturgia brasileira:
Pedra sobre Pedra (1992): Qem não se lembra de Jorge Tadeu (Fábio Junior)? A árvore em que desabrochavam as flores do personagem era disputada a tapa pelas mulheres na praça central da cidade onde a trama era desenvolvida. Outro personagem marcante foi Sérgio Cabeleira (Osmar Santos), um homem que sofria a cada lua cheia porque era atraído por ela.
Éramos Seis (1994): A morte de Ayrton Senna, ocorrida na época da estréia de Éramos Seis, adiou em uma semana a estréia da novela. A atriz Irene Ravache, protagonista da trama, gravou uma declaração na TV dizendo que Éramos Seis não poderia ir ao ar em meio à tanta tristeza.
A Próxima Vítima (1995): Primeira novela a colocar uma família de negros de classe média-alta como personagem da trama. O último capítulo foi gravado meia hora antes de sua exibição: o assassino da novela era Adalberto (Cecil Thiré).
A Indomada (1997): Antes de estrear como atriz, Maria Fernanda Cândido apareceu na abertura dessa novela. Aguinaldo Silva criou o antológico personagem Cadeirudo, que atacava as mulheres de Greenville, cidade fictícia onde se passava a trama. No final, foi revelada a identidade do Cadeirudo: para surpresa geral era Lurdes Maria, personagem de Sônia de Paula.
Terra Nostra (1999): O primeiro mês de gravações da novela consumiu R$ 4 milhões em custos. O número de figurinos utilizados em Terra Nostra chegou a 5 mil.
Estrela-Guia (2001): Ficou apenas três meses no ar e teve a cantora Sandy como a protagonista Cristal.
Pícara Sonhadora (2001): Chamou atenção pelo nome, um tanto estranho. O SBT poderia ter usado Pequena Sonhadora, mas por ordem do próprio Silvio Santos o nome original acabou ficando. Pícara Sonhadora é a primeira produção da parceria entre o SBT e a mexicana Televisa. A palavra pícara quer dizer astuta, travessa.
Kubanacan (2003): A novela acabou notificada pelo Ministério da Justiça devido ao excesso de violência. Na cena que foi ao ar no dia 8 de julho de 2003, Esteban (Marcos Pasquim) agride violentamente Carlito (Iran Malfitano) na frente do pequeno Gabriel (Pedro Malta).
Canavial de Paixões (2003): Produzida pelo SBT, a novela chegou a atingir 21 pontos de audiência contra 30 da Globo no mesmo horário (20h). Foi lançada no mesmo dia que estreava a novela Celebridade, em 13 de outubro de 2003.
Senhora do Destino (2004): Maria do Carmo Ferreira da Silva, nome da protagonista vivida por Susana Vieira, é o nome da mãe do autor da trama, Aguinaldo Silva. Para a abertura, foram usadas cerca de 400 pessoas. Os anônimos aparecem em preto e branco e os atores, em cores. Até o próprio Aguinaldo Silva aparece na abertura.
1984 - 1994
Roque Santeiro (1985)- Considerada a melhor novela de todos os tempos, Roque Santeiro foi escrita por Dias Gomes que criou personagens inesquecíveis como Sinhozinho Malta (Lima Duarte), Viúva Porcina (Regina Duarte), Zé das Medalhas (Luís Armando Bogus), Professor Astromar, que era lobisomem! (Ruy Resende) e o casal Florindo Abelha e Dona Pombinha (Ary Fontoura e Eloísa Mafalda). O figurino de Porcina (na foto) virou mania nacional: muita maquiagem, decotes, lenços no cabelo e brincos exagerados. Globo, 20h.
Vale Tudo (1988) -Aliou forte crítica social a um folhetim. A pergunta central da novela era: vale a pena ser honesto no Brasil? Odete Roitman (Beatriz Segall) e Marco Aurélio (Reginaldo Faria) representavam tudo de ruim que o país tem: corrupção e desonestidade. Raquel (Regina Duarte, foto) e Ivan (Antônio Fagundes, foto) eram os brasileiros honestos que sempre levavam a pior. O mistério da identidade do assasssino de Odete Roitman mexeu com a cabeça dos brasileiros que pararam para ver o último capítulo da trama. Globo, 20h.
1994 - 2004
O Clone (2001) -Registrou a maior audiência do horário das oito desde 1997, quando a Globo exibiu A Indomada. Misturou clonagem humana, islamismo e abuso de drogas. O mundo árabe acabou virando moda no Brasil. Globo, 20h.
Mulheres Apaixonadas (2003) - O par de adolescentes homossexuais Rafaela (Paula Picarelli) e Clara (Aline Moraes) teve beijo (estalinho) e tudo. A novela fez sucesso mostrando problemas reais como a violência doméstica contra a mulher, o preconceito com a relação entre um homem mais jovem e uma mulher mais velha e a violência urbana, na antológica cena em que a personagem Fernanda (Vanessa Gerbelli) é morta a tiros em pleno engarrafamento, no Rio de Janeiro. Globo, 20h.
- Éramos Seis (1994), A Viagem (1994), Xica da Silva (1996) O Rei do Gado (1996) Chiquititas (1997) A Indomada (1997) Torre de Babel (1996) Laços de Família (2000) O Beijo do Vampiro (2002) Senhora do Destino (2004) Cabocla (2004)
Segundo eles, as novelas...
"...influenciam sim e, às vezes, de maneira desfavorável. As crianças estão amadurecendo mais cedo por causa das novelas. Antes, as meninas menstruavam aos 13 anos. Hoje, aos 9. Há estudos indicando que a TV é um dos fatores que causa isso. Há uma forte erotização nesse veículo e não existe horário para certas cenas. Tudo é permitido."
Maria Joanete Martins da Silveira, doutora em Educação e coordenadora do curso de Pedagogia do Centro Universitário Franciscano (Unifra)
"...de época e as que mostram campanhas de conscientização são boas. Mas a maioria mostra valores familiares deturpados, o que induz as pessoas a acreditarem que aquilo é normal. Uma trama passa 150 capítulos mostrando gente que não presta se dando bem e só no último capítulo os bons prevalecem. Não deveria ser assim. As novelas poderiam conscientizar o povo."
Sílvio Weber, padre e assessor de comunicação da Diocese de Santa Maria
"...a situação melhorou, mas pode e deve melhorar ainda mais. Até os anos 80 o negro aparecia pouco nas tramas. E quando aparecia era sempre em papéis de baixa condição social. A partir de A Próxima Vítima (Globo), na qual aparecia uma família negra bem posicionada, a coisa mudou. Em Da Cor do Pecado também. Isso só foi possível graças à mobilização da sociedade."
Oscar Corrêa Junior, delegado titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente
"...mostram muitas situações apelativas, principalmente em relação ao sexo. Isso influencia os jovens a experimentarem situações negativas. Além disso, o bandido sempre é beneficiado, o que acaba ficando como um modelo, um exemplo."


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