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Aos 10 anos, o analista de sistemas catarinense
Nilson Xavier, 35 anos, gostava de brincar de carrinho,
de esconde-esconde e de assistir a novelas. As
brincadeiras ele deixou de lado, mas as emoções da
telinha o acompanham até hoje. Como ele não perdia
nenhum capítulo, acabou catalogando várias informações
sobre novelas em cadernos que guarda até hoje.
-
Anotava o nome dos personagens, a data de estréia e de
encerramento. Fazia uma minificha técnica - conta.
Com o surgimento da Internet, o que era
passatempo virou sucesso. Xavier, que hoje mora em São
Paulo, é o criador do site Teledramaturgia, um dos mais
completos do gênero na web.
- Os poucos sites
que existiam sobre o assunto eram fracos. Eu tinha muito
mais informação. Com a ajuda de um amigo, de livros e
revistas, montei meu site em 1999. Ele começou pequeno,
apenas com títulos da Globo - conta.
Depois, o
analista de sistemas foi acrescentando minisséries,
seriados nacionais e novelas de outros canais. Hoje,
segundo Xavier, o Teledramaturgia é referência de
pesquisa para gente da área e de fora dela.
-
Não ganho dinheiro com isso. Pelo contrário, até pago
pelo domínio Teledramaturgia na Internet - diz.
Emoção só com uma boa cena
O mais
difícil, conta ele, não foi reunir as informações, mas
digitá-las. Na estante, sua principal referência é o
livro Telenovela Brasileira - Memória, de Ismael
Fernandes. E os internautas também mandam informações
adicionais e correções para algum dado da página, que é
atualizada nos finais de semana.
A ironia é que,
apesar de Xavier manter um site desse porte, ele não é
fã de novelas. Assiste apenas as que gosta.
-
Hoje em dia, o formato anda meio desgastado. As melhores
produções ocorreram nos anos 70 - diz.
Mesmo
assim, o analista afirma que a novela brasileira é uma
fórmula única. E aponta Roque Santeiro como a melhor
trama que já assistiu:
- Comparadas com
produções de outros países, as novelas brasileiras são
as melhores. Mas, para uma trama me emocionar, é preciso
uma boa cena, bem escrita e dirigida, e com bons atores.
O site também tornou Xavier famoso. Ele dá
entrevistas para rádios, jornais e revistas e recebe
vários e-mails.
- Sempre me pedem contato com
artistas. Daí tenho de explicar que o site não é de
nenhuma emissora e eu não tenho contato algum com
ninguém do meio artístico - conta.
| Saiba mais |
| O site
Teledramaturgia, criado por Nilson Xavier, está no
endereço http://www.teledramaturgia.com.br/ |
| A página
registra todas as novelas já exibidas por todas as
emissoras brasileiras, com elenco, sinopse, fotos
e bastidores |
| O site também
conta com biografias de autores, lista de trilhas
sonoras e até um link para o Vale a Pena Ver de
Novo, às 14h30min, na Rede Globo. No link estão
registradas todas as reprises já exibidas nesse
horário |
| O
Teledramaturgia foi a fonte usada nesta reportagem
para contar a história e as curiosidades sobre as
tramas. Xavier também cedeu os logotipos das
novelas para o Diário |
| Curiosidades? Espia qui! |
| Irmãos Coragem
(1970) - A mais longa trama já produzida pela
Globo: 328 capítulos. Uniu um casal famoso da TV:
Tarcísio Meira e Glória Menezes |
| Selva de Pedra
(1972) - Na exibição do capítulo 152, em que
Rosana Reis (Fernanda Torres) era desmascarada, o
índice de aparelhos sintonizados na novela atingiu
100%, segundo o Ibope |
| O Bem Amado
(1973) - A censura implicou com os termos
"coronel", para Odorico Paraguaçu, e "capitão",
para Zeca Diabo. Até ser escalado para ser Zeca
Diabo, Lima Duarte era diretor de
novelas |
| Escrava Isaura
(1985) - A novela fez bastante sucesso no
Exterior, inclusive na Bósnia. Em 1997 (quando a
novela foi exibida no país), e em plena guerra,
sérvios e croatas decretaram cessar-fogo no
horário em que a trama era exibida |
| O Astro (1977)
- O país parou para ver quem matou Salomão
Hayalla. O Astro exibiu uma cena marcante: Márcio
Hayalla (Tony Ramos) tira a roupa, joga os trajes
no pai, Salomão, e vai embora de casa renegando a
fortuna da família |
| Dancin'Days
(1978) - Dancin'Days era o nome de uma discoteca
do jornalista Nelson Motta, no Rio de Janeiro, que
serviu de locação para a novela. A produção ganhou
uma reportagem na revista americana Newsweek, em
1978, sobre a influência nos hábitos do
brasileiro |
| Roque Santeiro
(1985) - Foi censurada em 1975, sendo substituída
às pressas por Pecado Capital, de Janete Clair. A
trama só seria exibida 10 anos depois. Betty
Faria, que interpretaria a Viúva Porcina, não quis
o papel |
| Dona Beija
(1986) - Novela da extinta TV Manchete, marcou
época com as cenas de Maitê Proença como Dona
Beija |
| Mandala (1987)
- Uniu na ficção e na vida real o casal Vera
Fischer e Felipe Camargo, que se separou anos
depois em meio a agressões físicas. O romance
ganhou muita página de jornal pelos escândalos.
Marcou época pelo tema da personagem Jocasta (Vera
Fischer), a música O Amor e o Poder, de Rosana. O
refrão grudava que nem chiclete: "Como uma
deusaaaaa, você me mantééémmm"... |
| Que Rei Sou
Eu? (1989) - O tema, O Rap do Rei, foi escrito por
José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então
vice-presidente de operações da Globo |
| Pantanal
(1990) - Sucesso que ameaçou a hegemonia da Globo.
A novela ficou engavetada na emissora por muito
tempo, até que Benedito Ruy Barbosa, o autor,
acabou indo para a TV Manchete Com o sucesso, ele
voltou para a Globo e entrou para seu alto escalão
de autores |
| De Corpo e
Alma (1992) - Ficou famosa não tanto pela trama,
mas por um trágico acontecimento: o assassinato da
atriz Daniela Perez a tesouradas pelo seu colega
de elenco, Guilherme de Pádua. Os dois faziam um
par romântico na novela. Daniela era filha da
autora Glória Perez |
| Chiquititas
(1997) - Exibida noSBT virou febre entre as
crianças. Os atores Débora Falabella e Bruno
Gagliasso participaram, ainda pequenos, do
elenco |
| Da Cor do
Pecado (2004) - Primeira novela da Globo a ter uma
protagonista negra, a atriz Taís
Araújo |
| Confira abaixo
mais curiosidades sobre os grandes sucessos da
teledramaturgia brasileira: |
| Pedra sobre
Pedra (1992): Qem não se lembra de Jorge Tadeu
(Fábio Junior)? A árvore em que desabrochavam as
flores do personagem era disputada a tapa pelas
mulheres na praça central da cidade onde a trama
era desenvolvida. Outro personagem marcante foi
Sérgio Cabeleira (Osmar Santos), um homem que
sofria a cada lua cheia porque era atraído por
ela. |
| Éramos Seis
(1994): A morte de Ayrton Senna, ocorrida na época
da estréia de Éramos Seis, adiou em uma semana a
estréia da novela. A atriz Irene Ravache,
protagonista da trama, gravou uma declaração na TV
dizendo que Éramos Seis não poderia ir ao ar em
meio à tanta tristeza. |
| A Próxima
Vítima (1995): Primeira novela a colocar uma
família de negros de classe média-alta como
personagem da trama. O último capítulo foi gravado
meia hora antes de sua exibição: o assassino da
novela era Adalberto (Cecil Thiré). |
| A Indomada
(1997): Antes de estrear como atriz, Maria
Fernanda Cândido apareceu na abertura dessa
novela. Aguinaldo Silva criou o antológico
personagem Cadeirudo, que atacava as mulheres de
Greenville, cidade fictícia onde se passava a
trama. No final, foi revelada a identidade do
Cadeirudo: para surpresa geral era Lurdes Maria,
personagem de Sônia de Paula. |
| Terra Nostra
(1999): O primeiro mês de gravações da novela
consumiu R$ 4 milhões em custos. O número de
figurinos utilizados em Terra Nostra chegou a 5
mil. |
| Estrela-Guia
(2001): Ficou apenas três meses no ar e teve a
cantora Sandy como a protagonista Cristal.
|
| Pícara
Sonhadora (2001): Chamou atenção pelo nome, um
tanto estranho. O SBT poderia ter usado Pequena
Sonhadora, mas por ordem do próprio Silvio Santos
o nome original acabou ficando. Pícara Sonhadora é
a primeira produção da parceria entre o SBT e a
mexicana Televisa. A palavra pícara quer dizer
astuta, travessa. |
| Kubanacan
(2003): A novela acabou notificada pelo Ministério
da Justiça devido ao excesso de violência. Na cena
que foi ao ar no dia 8 de julho de 2003, Esteban
(Marcos Pasquim) agride violentamente Carlito
(Iran Malfitano) na frente do pequeno Gabriel
(Pedro Malta). |
| Canavial de
Paixões (2003): Produzida pelo SBT, a novela
chegou a atingir 21 pontos de audiência contra 30
da Globo no mesmo horário (20h). Foi lançada no
mesmo dia que estreava a novela Celebridade, em 13
de outubro de 2003. |
| Senhora do
Destino (2004): Maria do Carmo Ferreira da Silva,
nome da protagonista vivida por Susana Vieira, é o
nome da mãe do autor da trama, Aguinaldo Silva.
Para a abertura, foram usadas cerca de 400
pessoas. Os anônimos aparecem em preto e branco e
os atores, em cores. Até o próprio Aguinaldo Silva
aparece na abertura. |
| 1984 - 1994 |
| Roque Santeiro
(1985)- Considerada a melhor novela de todos os
tempos, Roque Santeiro foi escrita por Dias Gomes
que criou personagens inesquecíveis como
Sinhozinho Malta (Lima Duarte), Viúva Porcina
(Regina Duarte), Zé das Medalhas (Luís Armando
Bogus), Professor Astromar, que era lobisomem!
(Ruy Resende) e o casal Florindo Abelha e Dona
Pombinha (Ary Fontoura e Eloísa Mafalda). O
figurino de Porcina (na foto) virou mania
nacional: muita maquiagem, decotes, lenços no
cabelo e brincos exagerados. Globo,
20h. |
| Vale Tudo
(1988) -Aliou forte crítica social a um folhetim.
A pergunta central da novela era: vale a pena ser
honesto no Brasil? Odete Roitman (Beatriz Segall)
e Marco Aurélio (Reginaldo Faria) representavam
tudo de ruim que o país tem: corrupção e
desonestidade. Raquel (Regina Duarte, foto) e Ivan
(Antônio Fagundes, foto) eram os brasileiros
honestos que sempre levavam a pior. O mistério da
identidade do assasssino de Odete Roitman mexeu
com a cabeça dos brasileiros que pararam para ver
o último capítulo da trama. Globo,
20h. |
| 1994 - 2004 |
| O Clone (2001)
-Registrou a maior audiência do horário das oito
desde 1997, quando a Globo exibiu A Indomada.
Misturou clonagem humana, islamismo e abuso de
drogas. O mundo árabe acabou virando moda no
Brasil. Globo, 20h. |
| Mulheres
Apaixonadas (2003) - O par de adolescentes
homossexuais Rafaela (Paula Picarelli) e Clara
(Aline Moraes) teve beijo (estalinho) e tudo. A
novela fez sucesso mostrando problemas reais como
a violência doméstica contra a mulher, o
preconceito com a relação entre um homem mais
jovem e uma mulher mais velha e a violência
urbana, na antológica cena em que a personagem
Fernanda (Vanessa Gerbelli) é morta a tiros em
pleno engarrafamento, no Rio de Janeiro. Globo,
20h. |
| - Éramos Seis
(1994), A Viagem (1994), Xica da Silva (1996) O
Rei do Gado (1996) Chiquititas (1997) A Indomada
(1997) Torre de Babel (1996) Laços de Família
(2000) O Beijo do Vampiro (2002) Senhora do
Destino (2004) Cabocla (2004) |
| Segundo eles, as
novelas... |
| "...influenciam sim e, às vezes, de maneira
desfavorável. As crianças estão amadurecendo mais
cedo por causa das novelas. Antes, as meninas
menstruavam aos 13 anos. Hoje, aos 9. Há estudos
indicando que a TV é um dos fatores que causa
isso. Há uma forte erotização nesse veículo e não
existe horário para certas cenas. Tudo é
permitido." |
| Maria Joanete
Martins da Silveira, doutora em Educação e
coordenadora do curso de Pedagogia do Centro
Universitário Franciscano (Unifra) |
| "...de época e
as que mostram campanhas de conscientização são
boas. Mas a maioria mostra valores familiares
deturpados, o que induz as pessoas a acreditarem
que aquilo é normal. Uma trama passa 150 capítulos
mostrando gente que não presta se dando bem e só
no último capítulo os bons prevalecem. Não deveria
ser assim. As novelas poderiam conscientizar o
povo." |
| Sílvio Weber,
padre e assessor de comunicação da Diocese de
Santa Maria |
| "...a situação
melhorou, mas pode e deve melhorar ainda mais. Até
os anos 80 o negro aparecia pouco nas tramas. E
quando aparecia era sempre em papéis de baixa
condição social. A partir de A Próxima Vítima
(Globo), na qual aparecia uma família negra bem
posicionada, a coisa mudou. Em Da Cor do Pecado
também. Isso só foi possível graças à mobilização
da sociedade." |
| Oscar Corrêa
Junior, delegado titular da Delegacia de Proteção
à Criança e ao Adolescente |
| "...mostram
muitas situações apelativas, principalmente em
relação ao sexo. Isso influencia os jovens a
experimentarem situações negativas. Além disso, o
bandido sempre é beneficiado, o que acaba ficando
como um modelo, um
exemplo." | |