Sinopse

A narrativa acontece por meio da reconstrução da memória de Nael (Theo Kalper/ Rian Cesar/ Irandhir Santos), testemunha e personagem da história que se desenvolve no sobrado, o principal cenário, em Manaus, entre as décadas de 1920 e 1980. Ele conta o que presenciou e o que soube da família de Halim (Bruno Anacleto/ Antonio Calloni/ Antonio Fagundes) e Zana (Gabriella Mustafá/ Juliana Paes/ Eliane Giardini). Nael sabe que um dos gêmeos, filhos do casal, é seu pai, só não sabe qual…

No Porto de Manaus, o libanês Galib (Mounir Maasri) recebe libaneses, sírios e judeus marroquinos no restaurante Biblos, montado no térreo de seu sobrado. Viúvo, vive ali com a filha, Zana (Gabriella Mustafá), então com quinze anos. Um dos frequentadores mais assíduos é Halim (Bruno Anacleto), atraído pela beleza de sua filha. Ele busca uma aproximação que parece improvável. Halim se dedica à pescaria nos lagos da região para ofertar postas de surubim a Galib. Ganha, com isso, a simpatia do patrício. Mas não é o suficiente para conquistar Zana. Num rompante de coragem exacerbada pelo vinho, Halim declama para Zana versos de amor em árabe. A jovem sente as palavras na carne. Rendida, ela se casa com o muçulmano e o jovem casal passa a viver no sobrado de Galib, uma exigência dela.

A maternidade potencializa a personalidade de Zana (Juliana Paes). Como Halim (Antônio Calloni) temia, os filhos passam a ser sua maior motivação, em detrimento do casamento. Seu excesso de amor é, de maneira contraditória, o que detona os conflitos que destruirão a família. Já na primeira gravidez, Zana dá à luz a gêmeos. Com certa dificuldade respiratória, Omar (Lorenzo Rocha) é o segundo a nascer e por isso apelidado de Caçula. Preocupada com a suposta fragilidade dele, Zana desenvolve um carinho desmedido, que a faz mimar um filho sem perceber que planta o rancor no coração do outro, Yaqub (Lorenzo Enrico). É apenas a primeira de uma série de escolhas que a mãe faz para diferenciar os filhos, embora goste de repetir, como numa espécie de autonegação, que eles são idênticos. Ao mesmo tempo, a filha mais nova, Rânia (Raphaela Miguel), cresce à sombra da mãe, que não admite outra figura feminina a brilhar dentro da casa.

Mais do que as diferenças entre os gêmeos, a deturpação do afeto da mãe é um catalisador da tragédia. Na primeira infância, a disputa pela atenção de Zana é permanente, mas Omar sempre vence. Yaqub sente inveja da coragem do irmão diante de desafios infantis e se agarra à barra da saia de Domingas (Sandra Paramirim), a criada indígena que deu a ele o afeto negado. A relação dele com Zana se torna cada vez mais tensa, um filho arredio ao toque da própria mãe. Omar, ao contrário, sabe conquistá-la com notável facilidade. Ao invés de apaziguar, o tempo só alimenta a gangorra emocional que se estabelece entre os gêmeos.

Na adolescência, mais uma figura feminina se interpõe entre eles: Lívia (Monique Bourscheid). Recém-chegada da França para uma estadia na casa dos tios, a bela garota desperta o interesse dos dois irmãos – e parece até se divertir com o poder de sedução. Numa noite, uma sessão de cinematógrafo promete momentos de diversão, mas só dá lugar à exposição pública da tensão que existe há anos entre os irmãos. Após uma queda da energia elétrica, as luzes se acendem e os lábios de Lívia e Yaqub estão colados. Omar é tomado pelo ódio, quebra uma garrafa e corta o rosto do irmão. Os gêmeos são, enfim, diferenciados. Agora Yaqub está marcado por uma cicatriz.

Em meio às dificuldades da Segunda Guerra Mundial, cujos ecos chegam ao quase isolamento da floresta, e ao medo de que uma tragédia tome conta de sua família, Halim decide mandar os filhos para sua terra natal, no sul do Líbano. Teme as consequências de brigas mais violentas entre eles. Zana se mostra relutante até o último segundo, quando solta a mão de Yaqub, mas não consegue se desprender de Omar. A escolha é mais forte do que ela. Sem olhar para trás e ciente da escolha da mãe, Yaqub viaja sozinho. Os anos que passará longe da família e da única paisagem que conhece reforçam questões existenciais e o modificam de maneira irreversível. Zana (Eliane Giardini) e Halim (Antônio Fagundes) não podem imaginar o quanto. A volta de Yaqub (Cauã Reymond) terá consequências inimagináveis.

Globo – 23h
de 9 a 20 de janeiro de 2017
10 capítulos

escrita por Maria Camargo
baseada no romance de Milton Hatoum
direção artística de Luiz Fernando Carvalho

BRUNO ANACLETO – Halim
GABRIELLA MUSTAFÁ – Zana
MOUNIR MAASRI – Galib (pai de Zana)
MUNIR KANAAN – Abbas (amigo de Halim)
SAMMER OTHMAN – Cid Tannus (amigo de Halim)
TUFIC NABAK – Talib (amigo de Halim)
LUCI PEREIRA – parteira

ANTÔNIO CALLONI – Halim
JULIANA PAES – Zana
LORENZO ROCHA – Omar
ENRICO ROCHA – Yaqub
RAPHAELA MIGUEL – Rânia
SANDRA PARAMIRIM – Domingas
MONIQUE BOURSCHEID – Lívia
EMÍLIO ORCCIOLO NETO – Aberlardo Reinoso (vizinho de Halim, tio de Lívia)
MARIA FERNANDA CÂNDIDO – Estelita (mulher de Aberlardo, tia de Lívia)
MARIANA NOLASCO – Nahda (filha de Talib)
SURA ZACHIA – Zahia (filha de Talib)
VIVIANNE PASMANTER – Irmã Damasceno (freira do orfanato onde viveu Domingas, a leva para trabalhar na casa de Zana)
PAULO RICARDO CAMPANI – passa o filme na casa de Aberlardo, quando Omar ataca Yaqub
GUILHERME LOGULLO – cantor no baile de carnaval
CLÁUDIO CAPARICA – padre que pede silêncio e separa uma briga no colégio entre Yakub e Omar

MATHEUS ABREU – 0mar / Yaqub
LETÍCIA ALMEIDA – Rânia
ZAHY GUAJAJARA – Domingas
THEO KALPER – Nael
SAMI BORDOKAN – Talib (amigo de Halim)
YASMIN GARCÊS – Nahda (filha de Talib)
GIULIA NADRUZ – Zahia (filha de Talib)
MICHEL MELAMED – Antenor Laval (professor e poeta, amigo de Omar)
GREGORZ MIELEC – Bolislau (professor de Yaqub)
JOSÉ AUGUSTO BRANCO – padre, diretor do colégio onde estudam Omar e Yaqub, expulsa Omar depois que ele agride um professor
CHICO EXPEDITO – padre, professor que vigia Omar no castigo e depois é agredido por ele
MARCOS ACHER – padre, professor de Omar e Yaqub
ZEFERINO KUARAY – Adamor Perna de Sapo (peixeiro)
AMANDA DE GODOI – aluna que ouve encantada Yaqub na aula de declamação

ANTÔNIO FAGUNDES – Halim
ELIANE GIARDINI – Zana
CAUÃ REYMOND – Omar / Yaqub
BRUNA CARAM – Rânia
SILVIA NOBRE – Domingas
RIAN CÉSAR – Nael
IRANDHIR SANTOS – Nael (adulto)
BÁRBARA EVANS – Lívia
ARY FONTOURA – Aberlardo Reinoso (vizinho de Halim, tio de Lívia)
CARMEM VERÔNICA – Estelita (mulher de Aberlardo, tia de Lívia)
ISAAC BARDAVID – Abbas (amigo de Halim)
JITMAN VIBRANOVSKY – Cid Tannus (amigo de Halim)
VICTÓRIA BLAT – Nahda (filha de Talib)
MABEL CEZAR – Zahia (filha de Talib)
CAMILA SILVA – Pau Mulato (amante de Omar)
JIMMY LONDON – Lorde Wyckham (contrabandista, amigo de Omar)
JÚLIO ADRIÃO – Adamor Perna de Sapo (peixeiro que encontra Omar para Zana)
JUAN ALBA – Rochiram (empresário indiano que compra o sobrado da família de Zana)
GIOVANA CORDEIRO – Celeste (empregada de Yaqub em São Paulo, seduzida por Omar)
ALEX REIS – Antonio Mayrink
ANDRÉ FALCÃO – conversa com Yaqub numa festa quando ele recebe um cartão postal de Omar dos EUA
KARINE MELLO – está na festa com Yaqub e Lívia

Baseada no livro de Milton Hatoum, recriada para a televisão por Luiz Fernando Carvalho, com roteiro de Maria Camargo, a minissérie ganhou o peso das tintas barrocas do diretor, que retratou a decadência de uma família, marcada por uma sucessão de erros, traçando assim uma metáfora com a cidade de Manaus (onde a trama foi ambientada) e, por conseguinte, com o Brasil.

Dois Irmãos é um épico familiar, um drama de enormes proporções emocionais, capaz de gerar um álbum de família que espelha a própria História do Brasil, suas alegrias e seus retrocessos. É uma obra com camadas sociológicas, antropológicas e históricas, tudo isso rebatido na mesa de jantar de uma família de imigrantes libaneses, no odor dos quartos, na sensualidade de uma mãe, no afeto desmedido por um de seus filhos, nos ciúmes dos outros membros da família e nas perdas que o tempo nos revelam . É um Brasil em formação, composto pelos sonhos, mas também pela força de trabalho dos imigrantes”, explicou o diretor artístico Luiz Fernando Carvalho.

Para uma tragédia de estética barroca, nada mais razoável que a direção pesada de Luiz Fernando Carvalho e as interpretações arrebatadoras de Eliane Giardini, Juliana Paes, Antônio Fagundes, Antônio Calloni, Matheus Abreu, Cauã Reymond e Irandhir Santos. Não teve o melhor: eles foram os melhores e em algum momento extrapolaram todas as expectativas.
Apenas uma crítica à escalação de Irandhir para viver Nael moço quando se podia ter optado por um ator mais jovem, correspondente à idade de Cauã Reymond, pai de Nael na história.

Muitos reclamaram do áudio da minissérie. Em entrevista ao jornalista Maurício Stycer do UOL, Luiz Fernando Carvalho citou problemas técnicos nas gravações em locações reais, como o sobrado que era o palco principal da trama.

Além de leituras dramáticas e improvisações, encontros com historiadores, antropólogos, filósofos e o próprio Milton Hatoum, Luiz Fernando Carvalho concentrou os atores em um processo de criação permanente, ministrando treinamentos que atravessaram várias técnicas para promover a criatividade e a unidade na interpretação.

“O recorte é protagonizado por imigrantes libaneses, mas essa mesma história poderia estar sendo contada numa família de japoneses, espanhóis, italianos ou portugueses, aqui e agora, em qualquer uma das culturas formadoras do nosso país. É a chegada de uma cultura de 8 mil anos, num país ainda criança como o nosso”, observou Luiz Fernando.

A equipe de produção fez uma busca por imagens de Manaus das décadas de 1920 a 1960 em arquivos no Brasil e exterior, que reforçavam o tom ao mesmo tempo memorialista e realista da obra. Entre elas, cenas do cotidiano da cidade, como navios no Porto, o bonde, a Cidade Flutuante, desfiles de 7 de Setembro, a volta dos Pracinhas na Segunda Guerra, manifestações estudantis durante o período da ditadura militar. O material foi encontrado em acervos estrangeiros como os do Institut Nacional de l’Audiovisuel (França), Library of Congress (EUA), Huntley Film Archives (Inglaterra) e Chicago Film Archive (EUA), e brasileiros como Cinemateca Brasileira, Arquivo Nacional e Acervo Jean Manzon.

Palco dos momentos felizes, dos amores e da tragédia da família, o casarão da Rua dos Barés se tornou, ao longo dos dez capítulos, símbolo da passagem do tempo na minissérie. A casa usada, interna e externamente, nas filmagens foi erguida nos Estúdios Globo com paredes de 50 centímetros de espessura, garantindo o tom realista. Numa homenagem ao mestre e amigo do diretor, Ariano Suassuna (1927-2014), sua fachada foi revestida com azulejos idênticos aos da casa onde viveu o célebre escritor, no Recife.
“O sobrado é uma metáfora do país, do sistema ora patriarcal, ora matriarcal, das leis que regem os afetos e o poder, dos opressores versus oprimidos, da formação do Brasil, da mistura do índio com o imigrante – está tudo ali. Esse caleidoscópio de afetos e cores está contando a história destes cruzamentos étnicos e estéticos que até hoje não pararam de se misturar. O restaurante Biblos é uma metáfora da gênese de como os povos se misturam em Manaus”, explicou Luiz Fernando Carvalho.

O sobrado fez parte de um conjunto de cerca de 30 edificações de influências francesa e inglesa, envelhecidas ao longo das filmagens pela equipe de pintura de arte e cenografia, para representar a passagem dos anos, a força da memória, e o processo de deterioração de Manaus no período em que se desenvolve a história. Nos anos 1930, os personagens vivem entre objetos de estética mediterrânea, como o espelho veneziano que Zana (Juliana Paes) herdou de seu pai. Com o fim da Segunda Guerra, o mundo começa a se modernizar e os móveis e utensílios mais nobres da casa vão dando lugar a eletrodomésticos e peças produzidas em série. No final dos anos 1960, quando o desgaste da família já é evidente, a melancolia aparece refletida no desgaste que toma conta das paredes, nos móveis antiquados e até no desbotamento da rede vermelha de Omar (Cauã Reymond) no alpendre. Louça kitsch, utensílios trincados e cada vez mais a presença do plástico emolduram a decadência e o desamparo dos personagens. Ao mesmo tempo, Manaus recebe sopros de uma modernidade forçada, trazidos pela criação da Zona Franca, em 1967. É quando começa um processo de descaracterização, que leva à arquitetura elementos como letreiros em neon, fiação elétrica desordenada e postes sem qualquer preocupação urbanística. No passar das décadas, no cenário de devastação do sobrado, reverberam a perda de identidade da cidade, a cisão da família e a violência do progresso em relação à floresta. Até que o drama atinja o grau máximo, e a descaracterização do lar seja de fato irreversível.

Além das gravações na cidade cenográfica, a equipe passou 15 dias, entre janeiro e fevereiro de 2015, filmando externas em Manaus, na cidade de Itacoatiara e nas praias do Rio Negro. Dois caminhões contendo maquiagem, figurino e equipamentos chegaram de barco à Amazônia. Apesar de soar como uma superprodução, as gravações aconteceram quase em caráter documental. Para dar conta da temperatura elevada, uma embarcação foi equipada para servir como ponto de apoio da equipe. Nela, o elenco fazia as trocas de figurino e se alimentava com um cardápio elaborado a partir da culinária típica local.
Durante a estadia em Manaus, as margens do Rio Negro eram percorridas diariamente até as praias banhadas, como a Praia do Iluminado e a Praia do Japonês – onde foi feita uma viagem a meados dos anos 1940, para representar a sequência em que Omar (Matheus Abreu) participa de uma competição de remo que envolve toda a cidade.

Do período de gravações in loco, também destacaram-se as cenas captadas na Aldeia Tamoios. Os índios, entre homens, mulheres e crianças, realizaram um ritual festivo para a emocionante sequência em que a personagem Domingas (Sandra Paramirim) regressa às origens para apresentar sua cultura ao filho Nael (Theo Kalper).

Veja também

  • cidade_proibida

Cidade Proibida

  • filhosdapatria

Filhos da Pátria

  • sobpressao

Sob Pressão

  • aformula

A Fórmula