
Conhecida como um "faroeste caboclo" por causa de seu gênero western, Irmãos Coragem foi inspirada nos filmes de bang-bang e sua linguagem cinematográfica era uma inovação na época.
O ponto de partida foram os romances As Três Máscaras de Eva de Corbertt H. Thigpen e Hervey M. Checkley; e A Pérola de John Steinbeck (que ainda renderia um Caso Especial adaptado por Dias Gomes). Mas Janete Clair também buscou inspiração nos romances Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski, e O Garimpeiro de Herberto Salles; e na peça Mãe Coragem de Bertold Brecht.
Precavida, a autora fez um dos três irmãos Coragem, Duda, ser um jogador de futebol do clube carioca Flamengo, para que o público urbano tivesse afinidade com a história. Janete temia um desinteresse pelo tema rural. Mas seu medo logo se desfez nos primeiros capítulos da novela. Os índices de audiência comumente ultrapassavam os 85% - marca então inédita na telenovela.
Aqui a Globo uniu dois de seus pares românticos mais famosas na época: Tarcísio Meira e Glória Menezes, e Cláudio Marzo e Regina Duarte. Marzo e Regina sairiam antes do fim para estrelar a próxima novela das sete, Minha Doce Namorada.
Daniel Filho narra em seu livro Antes que me Esqueçam:
"Acho que foi a primeira vez que uma novela estourou de ponta a ponta no Brasil, atingindo índices fantásticos de audiência. Deu mais audiência que o final da Copa de 70, entre Brasil e Itália. O jogo foi num domingo, e, no dia seguinte, a audiência da novela foi maior".
Um retrato do Brasil daqueles tempos pode ser encontrado na trama de Irmãos Coragem. A novela foi ao ar em 1970, ano em que o país ganhou a Copa do México, a tortura ainda era encoberta nos porões dos órgãos de repressão, e o General Médici era um presidente que mantinha um olho nos partidos clandestinos e outro nos campos de futebol. Médici não era muito diferente do Coronel Pedro Barros, o vilão da novela. Em Coroado o prefeito era cúmplice, a polícia era corrupta e o coronel era a lei. Jerônimo tentava combater as injustiças do coronel entrando para a política. Mas em Coroado, como no resto do Brasil, as eleições eram de mentirinha, o coronel comprava os votos dos eleitores. Duda, o jogador de futebol, desvendava os bastidores de um esporte muito diferente daquele que a mídia vendia na época. A novela chegou até a ser um trunfo de uma campanha levantada pela esquerda na época: a do voto nulo. Em 1970 houve eleições para senador e vereadores. A população votou maciçamente em Jerônimo Coragem, o candidato fictício da novela das oito.
Janete Clair teve a assessoria do jornalista e comentarista esportivo João Saldanha para criar o personagem Duda, o famoso craque do Flamengo, e descrever as angústias de um jovem do interior que se transforma em ídolo do futebol.
Coroado foi a segunda cidade cenográfica do Brasil (a primeira foi a da novela Redenção), localizada numa área de cinco mil metros quadrados, onde hoje funciona o Barrashopping, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Durante a novela, a cidade cenográfica foi destruída num temporal, e se tornou notícia de jornal, confundindo ficção com realidade. Durante uma enchente no Rio de Janeiro, um helicóptero fotografou a cidade cenográfica. A foto virou manchete do jornal carioca O Dia: "O Rio está inundado". Destruído pelo temporal, o cenário confundiu os repórteres. E a ficção, finalmente, se tornou realidade no último capítulo, quando Pedro Barros, enlouquecido, incendeia Coroado.
As cenas do garimpo fora feitas, em sua maioria, na serra de Teresópolis (RJ).
Os problemas enfrentados pela produção eram cotidianos. Um figurante foi atropelado por um cavalo. Outro caiu de sua montaria e ficou coberto de piche. Sem falar que para gravar na fictícia Coroado, atores e produtores tinham que driblar cobras, jacarés e as chuvas, que freqüentemente inundavam o pantanoso terreno e inviabilizavam o cronograma das gravações.
Durante a novela, Regina Duarte ficou grávida de seu primeiro filho, André. Janete Clair criou então uma gravidez para sua personagem, Ritinha, que ganhava uma filha, Gabriela. Em 1973, grávida novamente, a atriz teria finalmente uma filha, batizada de Gabriela. Em 1995, já atriz profissional, Gabriela Duarte viveu Ritinha no remake de Irmãos Coragem.
Também durante a novela, Glória Menezes teve meningite e ficou afastada mais de um mês - mas as gravações estavam tão adiantadas que ela nem chegou a sair do ar. Daniel conta em seu livro O Circo Eletrônico:
"Tive sorte em Irmãos Coragem. Glória Menezes teve uma meningite braba, ficou um mês fora da novela. Mas não ficou um dia fora do ar porque Janete Clair dividiu as cenas que já tínhamos gravadas. O que tinha sido gravado adiantado para duas semanas ficou no ar mais outras duas semanas e pouco. Quando Glória voltou, gravou uma cena que entrou no dia seguinte no ar. Demoramos até ficar com os capítulos adiantados novamente".
Sobre a música tema de abertura da novela, Daniel Filho comentou:
"Encomendei a Nonato Buzar uma música meio Enio Moriconi. A letra da abertura que ele fez era tão boa que decidi guardá-la para a virada da história que ocorreria no capítulo 12, quando João Coragem acha o diamante. Eu fiz com que a abertura fosse durante os 12 primeiros capítulos somente uma música instrumental, sem letra, para que tivesse uma valorização quando ele achasse o diamante e entrasse a letra, na voz de Jair Rodrigues: 'Irmão, é preciso coragem!'".
Uma cena marcante: num tiroteio no final da novela, Jerônimo morre com o corpo de sua amada, Potira, também morta, nos braços. Revoltado, João Coragem quebra o diamante que dera origem a todos os conflitos.
Em 1971 não existia o equipamento para fazer o efeito slow-motion (câmera lenta) em televisão. Para dar maior impacto à cena da morte de Potira e Jerônimo, os diretores recorreram à película cinematográfica, filmando a seqüência e rodando em câmera lenta.
O perfil do personagem Juca Cipó (Emiliano Queiróz) teve que ser alterado pois as crianças passaram a gostar dele. Ele era meio débil-mental, mas muito violento no princípio. Tornou-se mais infantil, engraçadinho.
No início da novela, Juca Cipó violenta Cema (Suzana Faini) que engravida e passa a viver um grande conflito com o marido Brás (Milton Gonçalves), um negro que jamais aceitaria um filho branco. Daniel Filho lembra que os telespectadores torciam para que o filho de Cema nascesse mulato e ela fizesse as pazes com o marido.
A novela marcou a estréia da atriz Sônia Braga na TV.
Ao contrário do que se pensa, Irmãos Coragem não foi a mais longa novela já produzida pela Rede Globo (328 capítulos). Esse título pertence a uma trama anterior: A Grande Mentira, que teve 341 capítulos.
Irmãos Coragem teve um remake atualizado por Dias Gomes e Marcílio Moraes, em 1995, fazendo parte das comemorações dos 30 anos da Rede Globo. Mas dessa vez não houve sucesso. Marcos Palmeira, Marcos Winter e Ilya São Paulo viveram os irmãos do título.
A novela foi reapresentada num compacto em 14/01/1980, no Festival 15 Anos (apresentação de Yoná Magalhães).
No mesmo ano seria reprisada pelas manhãs, dentro do programa feminino TV Mulher.
Reapresentada também no Festival 25 Anos, em forma compacta, de 23/04 a 18/05/1990.